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| Escrito por Jorge |
| Qui, 31 de Julho de 2008 10:14 |
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Capítulos postados até o momento: 7 de 7 “As almas frias, os cegos, os bêbados, não têm o que eu chamo coração. Coração tem aquele que conhece o medo, mas domina o medo; o que vê abismo, mas com arrogância. O que vê o abismo, mas com olhos de águia; o que se prende ao abismo com garras de águia: é este o valoroso.” (Nietzsche – “Assim falava Zaratustra”) 14 de março, 22:35
Acordo encharcado de água do esgoto. Vejo o viscoso rio em cuja margem eu me deitava. Era um milagre não ter me afogado. Será que nadei até ali? Não via mais o bueiro. Achava que não estava próximo do lugar onde havia caído. De novo o palpitar do coração artificial. De novo o medo. Não! Não vou permitir que as lembranças me dominem. Busco no meu bolso por alguma coisa, um comprimido. Encontro. Engulo. Sinto um gosto amargo na boca. Tento me levantar; uma fisgada na perna. Está sangrando; meu braço também sangra. Eles quase conseguiram me matar! Com certeza acreditam que tiveram sucesso; e talvez tenham razão. Não sei se escapo dessa vez. Tento levantar de novo. Dou um grito de dor. As ratazanas se assustam e fogem. E como havia ratos naquela cidade! Rastejo durante algum tempo em busca de uma saída. Não a encontro. Não a encontro! Grito mais uma vez. É o meu fim. Sobressaltado, dou um gemido, tampo os ouvidos. Era uma visão. Mais um delírio dos tempos de guerra. Desta vez é o ruído ensurdecedor do disparo de tanques que me tortura. A porcaria do remédio não estava fazendo efeito! Ouço outro grito em resposta ao meu. Uma criança olhava para mim atônita. Saiu em disparada. Outras pessoas se aproximam. Maltrapilhos que vivem nos esgotos, uma família inteira. Acho que vão me ajudar. Ledo engano. Roubam meu casaco e minha carteira e vão embora. Realmente, não dá para contar com a solidariedade alheia hoje em dia. Uns vinte minutos depois, o remédio faz efeito. Era mesmo uma droga poderosa, usada por soldados durante a guerra. A dor diminui, transforma-se em formigamento. As visões também se afastam. Agora meu coração mecânico bate de uma forma ritmada. Improviso um curativo para estancar o sangramento. Desta vez consigo me levantar. Estou tonto. Acho que vou acabar morrendo. O comprimido também é um veneno, que mata aos poucos seus usuários (e sou um usuário freqüente demais). Encontro a rua deserta ao abrir um bueiro... Uma estação de metrô está logo à frente.
15 de março, 16:20 — Você acordou, meu querido! Dessa vez fiquei preocupada. Encontrei você desmaiado na soleira da porta. Fui buscar o jornal e lá estava seu corpo estrebuchando...— comenta uma voz feminina aos risos. — E você ainda ri disso, doutora! — retruco, tossindo em seguida. — Rio, sim. Rio de tudo. Sabe que tomo uma droga específica para me deixar sempre de bom humor... Mas por falar em drogas, você não pode mais tomar a sua. Ela vai matar você. De fato, estava matando quando eu o encontrei. Foi mais difícil retirá-la do seu organismo do que reparar os danos dos tiros que você levou. Para sua sorte, sou muito competente. Já pode levantar. Ela apaga a luz branca sobre meu rosto. Fico com medo que as alucinações retornem. Pisco muitas vezes para acostumar meus olhos o mais rápido possível. Tento levantar. Sinto ainda uma fisgada na perna, mas consigo. O cômodo escuro parece saído do livro Frankenstein. Equipamentos científicos cercavam a mesa de operações em que eu estava. Aliás, aquilo era muito adequado já que eu, como muitos outros, era mesmo uma espécie de Frankenstein. Tornei-me um “cyborg” durante a guerra, quando implantaram em mim órgãos artificiais. Meu coração, por exemplo, não era o original, que teve o triste destino de ser estilhaçado numa batalha. Diga-se de passagem que uma das poucas coisas boas trazidas pela guerra foi o desenvolvimento da medicina, principalmente no que diz respeito a ferimentos à bala. — Você está metido em algo grave dessa vez, não é? Aceite um conselho de amiga: desista agora... — diz. Não respondo e dirijo-me até a porta. — Está me ignorando. Típico... Da próxima vez que estiver em apuros tome isso. Ao menos, não vai te matar. — Não confia em mim? — Não. Hoje em dia, ninguém deve confiar em ninguém. Confiança é algo perigoso, especialmente entre velhos amigos. Você deveria aprender isso... Preciso de sua assinatura digital nessa confissão de dívida. Estende um aparelho, no qual coloco a palma da mão.
16 de março, 10:22 Todos os indícios me levavam para aquela casa velha a minha frente. Ninguém à vista. Escancaro sua porta com um único chute. O interior em ruínas tem um cheiro de madeira podre. Pergunto-me como aquela construção ainda está de pé. Ouço passos... Ou foi o ruído do vento? Viro-me na direção do som. Ando devagar para o cômodo contíguo. O único ruído agora é o ranger da madeira causado pelos meus passos. Subitamente, porém, alguém salta sobre mim, alguém que estava agarrado no teto como uma aranha! Rolamos pelo chão. Dou um golpe poderoso, um soco, que o arremessa contra a parede. Sinto uma fisgada no peito. Ele havia cravado uma adaga bem na altura onde ficava o meu velho coração (o original que não mais batia). A ardência é forte, mas não vou me abater. Avanço contra o homem que percebo ser mais franzino do que eu. Aproximo-me devagar. Percebo que está um pouco desnorteado, mas já começa a se recompor. Desconfio pela sua expressão que ele sabe quem eu sou e por que estou ali. No chão, pego uma velha tora de madeira, com a qual pretendo acertar a cabeça dele. Era necessário que perdesse os sentidos por algum tempo, para que eu pudesse me tratar. Depois, eu o torturaria até arrancar-lhe a verdade! — Não! — ele exclama, com a cara amedrontada. Pelo visto estava bastante disposto a falar. — Fale! — O quê? Então resolveu se fazer de desentendido... Resolvo dar-lhe mais uma chance antes da tortura. — As crianças seqüestradas... Onde estão? De certo, pretendia falar “Que crianças?”, mas o medo não permitiu. Ele sabe que levará uma paulada na cabeça assim que pronunciar tais palavras. Mas que opções tem? É isso que ele está se perguntando; está se debatendo entre dois medos, um mais iminente e outro remoto. — Eles vão me matar se... — Eu vou te matar se não abrir o bico. E não vai ser uma morte rápida. Última chance. Quem são os seqüestradores? — Não adivinhou isso ainda? Quanta petulância! Minha paciência se esgota. Faço um movimento brusco para golpeá-lo na cabeça. Antes de terminar, porém, ele retira do bolso um papel que tinha gravado um símbolo bem conhecido. Fico chocado ante a visão daquele emblema. Não acredito! Não acredito! Minha irritação é tamanha que mato o homem franzino com um tiro na testa.
16 de março, 23:49 Ninguém me impede de subir as escadas. Aliás, não há ninguém à vista, a não ser um guarda que me ignora. No elevador, jogo mais substância cicatrizante sobre a ferida no peito e sinto minha pele arder como se estivesse sendo queimada, e, em certo sentido, estava. O elevador chega a seu destino: a cobertura. Não há portas, não há trancas nem segurança. Como podia não haver segurança? Como não sentiam medo? — Por que precisaríamos de segurança? Ninguém ousaria fazer nada contra nós. A não ser você, é claro... — diz um homem louro, adivinhando meus pensamentos. Eu bem o conheço, mas meu assunto não é com ele. — Não tenho tempo a perder com você. — Eu sei. Venha então. Subo um lance de escadas e não posso deixar de ter minha atenção atraída, por um momento, pela visão que se desenha a minha frente. A partir da janela consigo observar uma parte do bairro novo e da cidade velha com suas luzes faiscantes. Era mesmo uma bela vista. — Primeira vez em Tiphares? — pergunta o homem, sorrindo. Tiphares era o apelido que ganhara a parte murada da cidade. Dizem que era uma espécie de piada de mau gosto, uma referência a um filme do início do século XXI. — Longe disso. Onde ela está? — Minha senhora está se aprontando... Espanta-me que ela tenha concordado em recebê-lo. Não acha que é um pouco tarde para uma visita? — Vocês sabiam que eu viria? O homem faz sinal para que me sente no sofá ao lado da janela. Obedeço. É interessante que acredite estar no controle da situação. Isso fará com que abaixe sua guarda. Ele também se senta. — Sabemos o que precisamos saber. — Mandaram me matar. — Mandamos. E antes que você me pergunte, também ordenamos os seqüestros que você vem investigando de forma tão insistente.
17 de março, 2:31 — Olá — diz uma voz feminina inconfundível. Era de minha antiga amiga, Ana. — Obrigado por ter matado aquele palerma do Vítor. A morte dele foi muito conveniente. Ele sabia demais... — Onde está você? — No final do corredor. — Mandou mesmo seqüestrar aquelas crianças? — Cada um de nós faz o que é preciso para sobreviver. Você me ensinou isso, não se lembra? — disse. Havia algo de estranho na sua voz, algo frio e metálico. — Mas não finja que se importa com todas elas, meu caro. Tudo o que quer é a Clara de volta, não é? Pois então venha ver onde ela está! A menina que tanto busquei tinha treze anos anos. Fora seqüestrada há quase um mês. Ela fora a última a desaparecer... seqüestros em série. Algo que passou despercebido. Somente eu consegui vislumbrar a ligação entre eles... mas não agi antes que fosse tarde, até que alguém muito querido fosse afetado, a pequena Clara, a menina que eu salvara da guerra. Eu não pude salvá-la agora! Não tenho como salvá-la! Lá está ela a minha frente, morta, ou aparentemente morta, jazendo naquela mesa de cirurgia. — Você a matou! Por quê? Onde está? — Ela não está morta. — Está louca, Ana! Você matando crianças... para sobreviver? — Você disse que queria me encontrar. Aí estou, ou o que restou de mim — afirmou a voz metálica, abrindo uma porta. Lá estava um corpo humano... esse sim era um cadáver. Era a própria Ana... estava morta! — Eu morri... Meu corpo finalmente sucumbiu às complicações da doença. Mas ainda estou viva, entende? Conseguimos reproduzir meus padrões cerebrais no computador, copiá-los até a última memória, até o último byte de informação. — Isso é impossível... — É possível. A reprodução de padrões cerebrais é uma tecnologia antiga. Começou a ser desenvolvida há cem anos... mas tem suas limitações, é claro. No entanto, não pretendo permanecer assim por muito tempo. Vou copiar meus padrões neurais para o cérebro da menina.... Compreende agora? — Então é um computador... Tudo isso é obra de um maldito computador! Eu sabia. Sabia que a verdadeira Ana nunca faria isso! Nunca concordaria com esses crimes... nem para se salvar. — O fluxo do pensamento continua, portanto ainda estou viva. Minha mente continua existindo dentro da máquina... Mas pense o que quiser — fala o computador, encerrando o assunto. De fato, aquela voz não é da minha querida amiga, que morreu, mas de um computador que reteve algo das memórias dela. Tenho que me lembrar disso: estou falando com um computador. Preciso ganhar tempo. — Computador, quero dizer, Ana, por que ela? Por que justamente a Clara? A princípio, não ouço resposta. — Parece que você está tentando postergar o inevitável, velho amigo. Mas vou responder essa sua última pergunta. A tecnologia, como você disse, ainda precisa ser aprimorada. É mais fácil copiar os padrões cerebrais para o computador do que implantá-los em outro cérebro... Já foi tentado copiar os padrões para clones em estase, cujo cérebro é uma folha em branco, mas, por algum motivo, a informação é devorada pelo vazio daquelas mentes. O nada é poderoso demais. Já com adultos, simplesmente não conseguimos apagar as memórias antigas. A única solução é o meio-termo, ou seja, uma criança ou adolescente, de até uns quinze anos de idade... — As crianças seqüestradas. — Sim. Mas não tentei copiar minha própria mente. Os danos aos arquivos poderiam ser irreparáveis... Fiz o “upload” da mente de uma cobaia e tentamos fazer o “dowload” no cérebro de outra. Vários foram os fracassos. O único caso bem sucedido foi o das duas crianças que possuíam memórias em comum, dois irmãos. Por algum motivo, isso facilitou a transferência de informações. Mesmo assim, algo dos padrões antigos sempre permanece... É inevitável. Entende agora por que escolhi a Clara? Gostaria que você me entendesse e talvez... me apoiasse. Foi por isso que ainda não fiz a transferência. Queria conversar com você antes. Eu me unirei a ela... Nossas mentes serão uma só. E você poderia ser meu guardião. Agora que finalmente reencontrei vocês dois, queria recompensá-lo... — Recompensar-me? Você mandou me matar! — Isso foi coisa do Vítor... Temia que eu o escolhesse como guardião da Clara, posição que ele sempre almejou. Mas não confio nele. Nunca confiei... Ela percebe que estou tentando desativar cabos ao lado do console principal, o que, acredito, desativará o sistema. — Sei o que está pretendendo. Vai fracassar. Pare agora ou vai matar a você mesmo e a nós duas. Em parte, ela tem razão. Levo um choque muito forte que me desnorteia. Percebo que minhas mãos estão queimadas. Não consigo me mexer nem raciocinar com clareza por causa da dor. No bolso, busco a droga prescrita pela doutora. Ela me disse que seus efeitos seriam semelhantes ao do antigo remédio, sem os inconvenientes. Aplico-a. Sinto a droga fluir em meu sangue, mas seu impacto no cérebro é inesperado. Ela, de fato, afasta a dor, mas também causa uma sonolência paralisante. A doutora me traíra. Realmente, não se pode confiar em mais ninguém hoje em dia. Por estranho que pareça, aquele calmante não me privou da capacidade de sonhar. Ao contrário: tive um sonho muito lúcido, uma visão dos tempos da guerra, dos últimos anos, quando já havia desertado, daqueles poucos meses em que ficamos isolados nas ruínas, quando era impossível deslocar-se mais para o norte. As imagens passavam diante de mim, como num filme acelerado – exatamente como os supersticiosos acreditam que acontece quando a pessoa está morrendo. A nota comum de toda a visão que cobriu muitos meses era o medo onipresente. Ana e Clara, as duas estavam sob minha proteção. A família de ambas havia perecido nos combates e isso as aproximava. A menina de seis anos resgatei nos escombros de uma casa, a moça de vinte e três salvei de estupradores. Nos refugiamos num velho casebre abandonado, buscando uma chance de escapar da zona conflagrada. Essa oportunidade, porém, não surgia. Era praticamente suicídio tentar viajar por aquelas estradas – ainda mais que Ana estava debilitada pela radiação (doença que eventualmente a levaria à morte). Fora uma das vítimas de um ataque nuclear “cirúrgico”, tão comuns no século XXI. Eram artefatos de uso tático que atingiam alvos específicos, como bombas convencionais e, portanto, não estavam incluídas na definição de “armas de destruição em massa” – para o infortúnio de suas vítimas. Em retrospectiva, é lamentável que não tenhamos tentado escapar, porque a batalha, no fim, veio até nós de qualquer maneira. E na confusão que se seguiu consegui salvar a menina Clara, mas Ana teria morrido no incêndio da casa – isso foi o que pensei à época. O irônico é que não só ela havia sobrevivido mas também chegara a mesma conclusão sobre mim e sobre a menina. Somente muitos anos mais tarde, pouco antes de seu falecimento e após retomar o controle da fortuna de sua família, reencontraria Ana, desfazendo o equívoco... 17 de março, 6:38 — Fique deitado. Suas mãos ainda estão doendo? — pergunta-me uma voz bastante familiar. Era Clara. Estava aparentemente recuperada. — Já disse para não se levantar — ela insiste. — Como está se sentido? — Pergunto a mesma coisa. — Eu estou muito bem. Não se preocupe. Ainda sou eu mesma. Você estava certo no que disse ontem à noite: era impossível transferir a personalidade dela para dentro da minha cabeça. — Então como você se lembra do que eu disse ontem à noite? Você estava desacordada... — É verdade — diz, aos risos. — Nessa você me pegou... Tudo ainda está muito confuso, mas acho que foi o seguinte: algumas memórias foram transferidas sim, mas o processo foi interrompido ainda nas fases iniciais. No final, fiquei com certas memórias da Ana, com algumas impressões e, talvez, alguns tiques, mas continuo sendo eu. Garanto! E aquele computador está destruído... Sabe, a pobre coitada me deixou todos os bens dela. Sou sua única herdeira. Provavelmente, tornei-me a pessoa mais rica de todo o país... Não vai dizer nada, papai? — Sabe que não sou seu pai... — falo, sem irritação. Na verdade, desde sempre a amara como filha, mas, por algum motivo, não gostava que me chamasse de pai. Fazia-me parecer mais velho. E ela sempre se divertiu implicando comigo dessa forma. Tranqüiliza-me o fato de que mantém os velhos hábitos. Faz um ar de séria e comenta: — Daqui para frente, vou precisar muito da sua ajuda. Mais até do que antes. Mais até do que nos tempos da guerra. Sabe disso, não? Nada respondo. Mas ela percebe que pode contar comigo. Como poderia ser diferente? Não posso e não vou abandoná-la. Nunca! Vejo a satisfação em seu olhar pelo meu assentimento. — Olha que lindo! — fala, apontando para a janela com uma expressão quase infantil. De fato, o nascimento do sol no oceano revelava toda cidade, que é majestosa a sua maneira. O mundo ainda é belo e, apesar de toda a destruição, merece ser protegido. Mas a verdade é que o mundo não me importa. Só tenho olhos para a pequena Clara. Sempre foi assim. Ela merece minha proteção mais do que todos! A satisfação que experimento, porém, é perturbada no instante seguinte pela sombra uma dúvida. Fico desnorteado ao perceber que seu sorriso é idêntico ao da finada Ana. Ou é apenas uma impressão? Não sei dizer. Acho que estou me tornando paranóico... Ela não percebe meu temor e busca os papéis que tratam da herança: — A idiota até providenciou uma mudança no meu nome. Acredita? Olha só! Agora sou Ana Clara. fim
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| Última atualização em Dom, 16 de Novembro de 2008 07:49 |



