Maldição Ancestral Imprimir E-mail
Contos
Escrito por Jorge   
Qui, 17 de Julho de 2008 16:28
A mais velha e forte emoção do ser humano é o medo e o medo mais poderoso e antigo é o do desconhecido.”
H. P. Lovecraft

I


LivroNão sei por que aceitei o convite. Realmente, foi uma atitude um pouco estranha. Não conhecia o Gabriel, ou melhor, eu o conhecia, mas apenas superficialmente. Estudávamos na mesma classe da oitava série do Colégio Ideal, em Cascavel. Aquele era um dia de inverno rigoroso, aliás, nada incomuns no Paraná. Por que minha família escolhera morar na única região do Brasil em que realmente fazia frio? Uma vez fiz essa pergunta a meus pais e eles me responderam que gostaram do nome da cidade e por isso se mudaram! Isso é explicação que se dê? Eu tinha motivos concretos para desgostar dali, a saber, eu detestava o inverno! O pior frio, diga-se de passagem, é aquele úmido. São horríveis os dias em que uma garoa gelada e incessante goteja sobre a cidade. Ao observar os gramados tornados brancos pela geada, lamentava-me por não poder ficar em casa dormindo. O melhor a fazer nessas ocasiões cinzentas é não sair da cama!

Naquele dia, não consegui prestar atenção nas aulas. Como disse, o que me perturbava era o convite. O Gabriel não aparecia na escola já fazia umas duas semanas, desde que o pai dele, o Doutor Otávio, fora internado no Hospital Regional. Ele, naturalmente, ficou muito abalado, porque era filho único e órfão de mãe. Como não tinha outros parentes, se acontecesse alguma coisa com seu pai, ficaria sozinho! Pelo menos, possuía algumas propriedades que o poupavam de preocupações com próprio sustento. Na hora do recreio, fui falar com um tal de Jorge, do primeiro ano do segundo grau, cujo pai, pelo que sabia, atendera o Doutor Otávio.

— E aí, Jorge? Lembra de mim?

Ele não respondeu. Estava distraído, sentado numa bancada, lendo um livro qualquer.

— Sim? — falou, depois de algum tempo.
— Isso quer dizer que você se lembra de mim?
— Bem... Acho que já vi você lá no Judô. Você faz aula à tarde, não é?
— Isso. Meu nome é Letícia — disse sorrindo. Ele, por outro lado, continuou carrancudo. Parecia até um pouco incomodado com a minha presença. Certamente, devia estar irritado por eu ter ousado interromper sua preciosa leitura. Não é a toa que tinha fama de esquisito! — O que eu queria, Jorge, é saber do Doutor Otávio. Seu pai comentou alguma coisa com você? — inquiri. Como ele não respondia, completei: — Sabe de quem estou falando?
—Sim. Mas qual o seu interesse nesse assunto?
— Só estou curiosa, é isso.
— Na verdade, não sei muita coisa. Parece que ninguém conseguiu diagnosticar a doença dele até agora. Acho que vai ser transferido para São Paulo.
— Tudo bem. Obrigada, mesmo assim — disse, sorrindo novamente, mas ele me ignorou, voltando à leitura. A conversa com o irritante Jorge fora inútil! Ele não me ajudara em nada a decidir o que fazer. Por que, afinal, o Gabriel me convidara? Por que justamente a mim?

II


O carro negro me esperava na saída da escola. Ao contemplar sua silhueta, recordei o telefonema da noite anterior nos mínimos detalhes:
— Oi, Letícia?
— Olá, quem fala?
— É o Gabriel.
— Gabriel, quem?
— Lá do colégio.
— Ah... — disse, pela absoluta falta de outras palavras. Fui pega de surpresa.
— É que eu tenho faltado a aula e...
— Entendi! Você quer pegar a matéria — disse aliviada. Era comum que quisessem tirar cópias dos meus cadernos (tinha ótima caligrafia e era uma das melhores alunas da sala). — Tiro xerox dos cadernos e mando para você.
— Muito obrigado. Mas eu gostaria muito que você trouxesse pessoalmente as cópias. Pode ser? Mando meu motorista te pegar na saída da escola.
— Mas por que isso?
— Sei lá. Só queria conversar com alguém. Prometo que não vou ser chato nem vou ficar chorando no seu ombro.
— É que...
— Por favor. E só uma visitinha rápida. Nós somos colegas há quanto tempo? Desde a quarta série?
— Ah, acho que sim.
— Então? Não me negue esse pequeno favor, não nesse momento em que estou passando por tantas dificuldades. Não vou tomar mais do que uma hora do seu tempo. Prometo!
— O seu pai está pior?
— É sobre isso mesmo que gostaria de conversar com você.
— Mas por que comigo?
— Já falei demais. Amanhã eu te conto.
— É que eu tenho aula de Judô às quatro.
— Antes das três vai estar em casa. Venha apenas almoçar comigo depois da escola. Amanhã? Que tal? Por favor?
— Tudo bem, então. Mas tenho que estar em casa antes da três.
— Ótimo. Até amanhã!

III

Pena. Esse era o motivo que me levava a visitar o Gabriel. Pelo menos, foi essa a conclusão a que cheguei depois de rememorar a conversa que tive com ele. Estava passando por tantas dificuldades e não tinha com quem conversar. Nenhum parente. Ninguém. Tudo o que pedia era uma hora do meu tempo. Seria desumano negar-lhe esse pequeno favor. Decidi visitá-lo. O sisudo motorista era um homem moreno e alto. Assim que entrei no carro, partiu sem dizer palavra. Senti uma sensação desagradável, desses sentimentos sem causa aparente que, às vezes, surgem sem aviso. Intuí que algo ruim aconteceria, que as lacunas de meu desconhecimento seriam logo preenchidas com eventos desagradáveis. Algo me dizia que aquele chamado nada tinha a ver com meus cadernos mas, sim, com a estranha doença que se apoderara do pai do Gabriel. Mas por que eu pensava assim? Eis uma pergunta para a qual não consegui encontrar resposta. A verdade é que não tinha base para tais conjecturas, mas, apesar disso, não era capaz de afastá-las.
A casa do Gabriel era muito bonita. Ficava no bairro mais exclusivo da cidade: o Country (assim chamado porque ali se localizava o “Country Club”). Era de dois andares, construída num vasto terreno com quadra de tênis e piscina. Meu anfitrião não demorou a aparecer muito satisfeito, por sinal, por eu ter atendido o chamado dele. Tratava-se de um garoto da minha idade, ou seja, uns quatorze anos, de cabelos escuros e lisos, mas de pele bastante clara, uma certa palidez. Tinha olheiras, como as de alguém que não dorme há um bom tempo. Havia mesmo algo de doentio no seu semblante, o que me fez pensar que talvez tivesse a mesma doença do pai.
— Obrigado por ter vindo, Letícia. Vamos entrar?

IV

— Aqui estão as fotocópias — disse. Estávamos os dois sentados no sofá da sala de estar. A nossa frente uma grande televisão, das mais modernas daquela época (quase um “home theater”, como se diz hoje em dia).
— Muito obrigado. Você é a melhor aluna da sala, depois de mim, é claro — disse, aos risos. Ele parecia muito animado e saudável. Isso diminuiu um pouco os meus temores de que ele estivesse doente.
— Isso não é verdade! Eu sou melhor aluna que você.
Nós dois rimos. Mas ele subitamente ficou sério e com a expressão entristecida:
— Você sabe, Letícia, que não foi por causa dos seus cadernos que eu pedi que viesse aqui. Eu queria mesmo é falar com alguém sobre meu pai.
— Descobriram qual é a doença dele? — perguntei. De fato, estava curiosa para saber alguma coisa a respeito do misterioso e súbito mal do Doutor Otávio.
— Não ainda. Nem vão descobrir. Simplesmente porque ele não tem nada.
— Mas eu ouvi falar que estava em coma!
— E está... Como eu posso explicar isso para você? Vamos começar do início, está bem? Você sabe de onde vieram meus antepassados?
— Quando você falou em “início”, realmente queria dizer “início”! — disse, sorrindo. Mas como ele continuava sério, procurei responder sua pergunta: — Pelo seu sobrenome, acho que você é italiano, não é?
— Não apenas. Meu pai é descendente de italianos, mas minha mãe era libanesa. Meu avô materno se mudou de Beirute para Foz do Iguaçu no início dos anos oitenta. Mas a família de minha mãe não é originalmente da região onde hoje fica o Líbano. Séculos antes haviam migrado de Damasco que, atualmente, é a capital da Síria.
— Sinceramente, não sei como isso possa ter alguma coisa a ver com a doença do seu pai...
— Veja — disse ele, ligando a televisão e o videocassete. Senti uma pontada no peito ao contemplar a estranha imagem que se desenhava na tela. Apesar disso, ainda desejava entender o que ocorrera com o pai do Gabriel, embora isso, em tese, não devesse me interessar nem um pouco. Por que, afinal de contas, queria saber?
Era um vídeo caseiro, feito pelo próprio Doutor Otávio em que ele estava sentado numa cadeira, numa espécie de porão, folheando um livro anormalmente grande de capa escura. Tinha um caderno nas mãos, onde, ao que parecia, fazia anotações sobre o que estava lendo. Subitamente, começou a falar numa voz gutural, realmente muito peculiar, como se estivesse numa espécie de transe. Então a imagem ficou pouco nítida, tremida. Não dava para afirmar coisa alguma, mas pareciam haver luzes naquele porão — luzes que não estavam lá antes. Quando a imagem voltou ao normal, o Doutor Otávio parecia confuso, tonto. Fechou o livro às pressas e desligou a câmera.
— Esse vídeo foi gravado logo antes de ele entrar em coma. Subiu as escadas, e desmaiou aqui nessa sala. Fui eu que encontrei o papai, a fita e... o diário — disse, mostrando o caderno em suas mãos.

V

Por que não saí correndo naquele momento? Eu podia ir muito bem para casa sozinha... podia pegar um táxi, ou ir a pé. O Gabriel deixara a porta apenas encostada e, se ele tentasse me impedir, aquele rapaz magrinho ia experimentar o que é o golpe de Judô Ippon-seoi-nague seguido de uma chave de braço! Eu poderia escapar se quisesse, mas estranhamente sequer me mexia. Pensei que era o medo que me paralisava, um medo tão intenso como jamais imaginei poder sentir, um terror quem nem mesmo o estranho vídeo justificava. Mas por que não me mexia? Mas por que queria ficar? Algo dentro de mim pedia para que ficasse, algo que se misturava com o medo e o fazia paralisar minhas pernas.
— O diário fala muitas coisas sobre o livro que está no porão e sobre a família de minha mãe. Diz que há séculos meu ancestral conseguiu uma das únicas cópias originais do livro. Parece que ele não pretendia usar o livro ou coisa parecida. Ao contrário, tinha que mantê-lo escondido, à espera do momento certo...
Gabriel interrompeu seu discurso e ficou com o olhar perdido por um tempo.
— Que momento, Gabriel?
— Ninguém sabe direito... talvez o momento em que os poderes que estão mencionados no livro voltem a andar nesse mundo.
— Não entendo!
— Já disse que não sei direito... Supostamente, muito antes dos seres humanos existirem na Terra havia esses poderes. Chame-os como quiser... deuses, demônios. Reza a lenda que o autor do livro descobriu sobre eles numa cidade sem nome construída por répteis humanóides. Os poderes morreram (ou adormeceram, não sei) muito antes da ascensão do mais primitivo hominídeo. Mas ainda há meios de invocá-los. Supostamente, está tudo no livro.
— E os répteis?
— Há quem acredite que vivem ainda em lugares remotos, em cavernas, e mesmo entre os humanos, disfarçados com sua magia. Existem até teorias conspiratórias de que eles estariam manipulando a história humana até hoje... — falou, rindo brevemente. — Há também a crença de que eles teriam destruído muitas cópias do livro, temerosos de que a humanidade se apossasse de seus segredos e poder.
— Essa história é muito absurda. Seu pai devia estar maluco!
— Talvez concordasse com você se não houvesse tantas evidências... a começar pela morte dos meus parentes. Depois que o baú foi aberto, morreram meu avô, minha mãe e agora... Descobriram tarde demais sobre a natureza da maldição.

VI

A maldição, segundo o Gabriel, abateu-se, em primeiro lugar, sobre seu ancestral em Damasco, no século XV, e, depois, transmitiu-se para o filho primogênito dele (felizmente, apenas para o primogênito). Ambos morreram jovens. A saúde dos dois simplesmente ia se deteriorando, como se a própria energia vital estivesse sendo sugada. Parece que a maldição tinha alguma coisa a ver com o modo como o livro havia sido obtido, mas sobre isso não se sabia detalhes. Era um feitiço descrito no livro que causava a maldição, mas isso não quer dizer que, com a destruição do tomo, ela fosse eliminada. De fato, era como uma doença que passava do portador para o primogênito e assim por diante — e se o livro tivesse sido destruído, como, aliás, cogitou-se fazer, talvez nunca houvesse uma saída. Isso porque, ao que parece, foi na própria obra que se descobriu uma forma de postergar os efeitos da maldição, ainda que sem os eliminar para sempre. Se o tomo fosse selado de uma maneira específica, era como se ele nunca tivesse sido obtido e, portanto, a maldição desaparecia enquanto o selo persistisse. Na terceira geração após a obtenção do tomo foi que se descobriu essa solução e, de fato, o ancestral do Gabriel voltou a ficar saudável. Essa história foi transcrita em duas cópias, uma delas colocada no próprio baú em que o livro foi selado. A outra permaneceu com o amaldiçoado e ele o transferiu para seu primogênito e assim por diante, através dos séculos. O baú permaneceu guardado como o mais precioso tesouro da família e o selo foi protegido por gerações. É claro que a história foi se perdendo aos poucos e tudo o que restou após centenas de anos foi a idéia de que a caixa nunca poderia ser aberta e a vaga referência a uma maldição.
— Quer dizer então que seus parentes abriram a caixa?
— Não sei direito o que aconteceu, se meu avô a abriu ou se foi um acidente. O fato é que nem minha mãe nem meu avô acreditavam mais nessa história de maldição. Quem acreditaria hoje em dia? Mas quando abriram a caixa lá estava o livro e o texto de nossos ancestrais, ambos, estranhamente, muito bem conservados... Isso foi há dois anos. Demoramos um pouco para decifrar o texto, mas acabamos conseguindo depois que as mortes começaram...
— Uma coisa não faz sentido: seu pai é italiano. Ele não tem nada a ver com a maldição da família de sua mãe. Por que ele ficou doente?
— É claro que meu pai não foi vítima da maldição... Ele estava tentando me salvar, eu acho. Estava tentando selar livro novamente para que eu não morresse. Há uma descrição bem detalhada do ritual no documento que estava no baú com o livro. O que ele queria era repeti-lo, e é, por isso, aliás que eu a chamei aqui.
— Nem pensar. Não vou ajudar você numa loucura dessas! Não depois do que aconteceu com seu pai! — exclamei. Finalmente, demonstrava um pingo de discernimento. Finalmente, minhas pernas haviam voltado a me obedecer e eu estava mais do que disposta a ir embora!
— Mas eu preciso da sua ajuda. Senão estarei condenado.
— Desculpe, mas sinceramente não me importo com você a ponto de arriscar minha vida por sua causa.
— Mas tem que ser você! — ele exclamou. Nesse momento, eu já estava a uns dois passos da porta. — Meu pai não entendeu o ritual... Eu garanto que não há risco... Não tenho tempo de achar outra pessoa! Tenho que fazer isso antes que a maldição acabe comigo!
— Nem pensar! — sentenciei, abrindo a porta.
— Temia que dissesse isso — foi o que eu o ouvi dizer antes que alguém me atacasse com um pano embebido em éter. Era o motorista. Como poderia aplicar um Ippon-seoi-nague naquele brutamontes?
VII

Quando recobrei os sentidos, estava amarrada em algum lugar escuro, um porão. A primeira imagem que vi, através da penumbra, foi a de uma coruja empalhada, depositada na porta, que causou em mim uma sensação muito desagradável. Um medo irracional e paralisante, que transcendia minhas circunstâncias, apossou-se de mim. Tão horripilante era que parecia até que o sentimento emanava daquela figura. Perguntei-me se seria capaz de me mover mesmo que não estivesse presa, tal o terror que sentia. Ao olhar para a esquerda, dei um grito agudo. Havia alguma coisa ao meu lado: um cadáver de uma mulher, estranhamente conservada.
— Ela não está morta... ainda — disse o Gabriel, com uma voz que exalava crueldade. Estava sentado ao lado do livro, na mesma cadeira em que estivera o Doutor Otávio durante a gravação. — Ela está num estado entre a vida e a morte exatamente como meu pai. Foi o produto de um ritual mal realizado. É claro que a idéia era que somente ela morresse e que sua energia vital servisse para selar o livro. Mas alguma coisa saiu errado... Concluí que a energia dela havia sido insuficiente e que, por isso, o livro buscou a força vital do meu pobre pai. Mesmo assim, não bastou e então ambas as energias se perderam. O erro dele foi pensar que qualquer pessoa jovem e saudável serviria para o ritual... então, escolheu alguém de quem ninguém sentiria falta. O plano dele era bom, em tese,... mas pecava nos detalhes. O coitado pagou com a vida... Tudo porque não sabia árabe e acabou se baseando nas observações de meu avô sobre o livro e sobre o texto. Mas eu sei árabe e embora a língua que está no manuscrito original seja muito arcaica, com a ajuda das observações de meu avô consegui, com grande dificuldade, admito, entender uns certos pormenores que meu pai não percebeu.
— Por que está me falando essas coisas?
— Esse é um dos detalhes: a energia vital tem que ser conduzida para o baú. O melhor é que esteja ciente de para onde está indo. Se o sacrifício for voluntário, é a perfeição. Por isso, contei toda a história a você e tentei convencê-la a me ajudar. O outro detalhe, como eu disse, a pessoa em questão deve possuir uma energia vital acima da média e existe um encanto para se encontrar tal indivíduo. Eu fiz esse encanto, minha querida; acho que você consegue deduzir qual foi o resultado. As outras imagens que surgiram eram de pessoas desconhecidas... Que sorte a minha ter uma colega tão prendada... cuja energia é tamanha que parece até ter uma aura de magia a rodeá-la. Você dará um excelente selo — ele disse, rindo, o que ocasionou um ataque de tosse, que demorou a passar. — Como pode perceber, minha saúde não está muito boa. Vamos começar?
— Espere! O que é essa coruja? — perguntei, aterrorizada. Queria chorar, mas não conseguia. Quase não era capaz sequer de falar, tal o terror que me torturava.
— Essa é a última explicação que vou lhe dar, ok? A coruja é um amuleto. Serve para afastar os répteis de que te falei. Se quer saber minha opinião, realmente não acredito em nada disso. Parece coisa do “Além da Imaginação”. É a mitologia misturando-se a fatos verdadeiros. Uma grande baboseira. Agora, ao ritual!

VIII


Do estranho ritual não me recordo quase nada. Logo no início, perdi os sentidos. Havia, claro, frases incompreensíveis e a voz gutural que surgiu depois de um tempo. Mas não sei nada além disso. Como disse, adormeci por efeito daquele estranho encanto para, provavelmente, nunca mais despertar. Coisas improváveis, porém, são mais comuns do que se imagina. É que o mundo não é tão concreto como pensamos nem suas leis tão imperecíveis que não possam ser contornadas. Sim, eu acabei despertando naquele mesmo porão, sozinha. O livro não se encontrava mais sobre a mesa, ou melhor, as cinzas dele ainda estavam lá. O antigo tomo fora destruído e eu não estava mais amarrada. Levantei com dificuldade. Alguma coisa, certamente, devia ter saído errado no ritual. O Gabriel não parecia estar em nenhum lugar próximo. A coruja também havia desaparecido, o que para mim foi um grande alívio. Subitamente, minha atenção foi atraída por um objeto luminoso. A câmera! Como o pai, ele decidira filmar o ritual! Num impulso, peguei a fita e corri para as escadas. Cheguei rapidamente à sala e depois ao lado de fora. A porta, aliás, estava escancarada. Já era noite. Corri sem parar, minha boca tomada de um gosto amargo que nunca sentira antes. Finalmente, encontrei um táxi; fui para casa. Sem dar atenção para meus pais e suas perguntas, corri para o videocassete que tinha no meu quarto.
A primeira imagem que surgiu correspondia ao que eu me lembrava. Mas depois, em vez das luzes, algo terrível aconteceu! Não sei se invocada pelo livro, uma criatura meio homem meio serpente (um demônio, talvez) surgiu não sei de onde, destruiu a coruja e atacou o Gabriel! Seus dentes eram muito afiados, de sorte que na primeira mordida arrancou uma lasca de carne da sua barriga. Ele soltou um grito atroz. A criatura era muito voraz. Ela não parou de devorar sua carne magra até que não restasse mais do que restos dos órgãos internos. Pareceu ter especial prazer ao degustar seu cérebro dilacerado. Depois destruiu o livro, que se incendiou com chamas surgidas não sei de onde. Vomitei, ao ver aquelas imagens, e senti uma tontura muito intensa que me fez cair. O mundo girava a minha volta, girava sem cessar. Via agora o lado de fora, o sol poente, a carcaça sendo arrastada, o motorista, um corte que dividiu o crânio do homem ao meio, uma lambida no cérebro, a carcaça, um descampado... Como eu estava vendo essas coisas? Como eu consegui escapar? Por que a criatura não me matou também?
Minha cabeça pendeu para a esquerda e eu vi o que havia vomitado. Havia na massa pegajosa o que pareciam ser alguns fios de cabelos e restos de um cérebro humano. Inumeráveis sensações inundaram minha mente naquele instante de esclarecimento. Foi muito agradável destruir a coruja empalhada, aquele amuleto maldito contra os de minha raça! Foi igualmente prazeroso despedaçar o tomo, vã tentativa humana de roubar nossos poderes. Devo confessar, porém, que nada foi mais agradável do que saborear o cérebro daquele magrela! A aura de magia que envolvia meu corpo se dispersara e minha pele assumia um tom de verde, o que não havia acontecido desde que era muito jovem para me lembrar. O Gabriel achava que a história dos répteis era uma grande tolice. Esse foi o seu erro fatal. Finalmente entendia por que meus pais apreciavam tanto o nome “Cascavel”.

fim

Alguns artigos relacionados:

Última atualização em Qua, 20 de Agosto de 2008 10:50